Benjamin estava planejando ir embora. Clara, no chuveiro, perguntou: “O que você disse?”
Ele resmungou pra si mesmo, sem coragem de olhar nos seus olhos, “Eu vou embora daqui”… E partiu.
Clara sempre foi objetiva e intensa. Ou amava muito ou amava pouco. Conheceu Benjamin numa sessão de fotos que foi acompanhar junto de seu cliente. Aquele jeito de homem bruto chamou sua atenção.
Tudo entre eles foi muito rápido. Com Clara as coisas acontecem como num vendaval. Mas se a outra pessoa não se entrega, beijá-la não lhe trará mais nenhuma emoção. Para ela, quem não se entrega não tem gosto.
Já Benjamin ora, ele talvez nem tenha culpa de não conseguir acompanhá-la. Talvez não queira viver assim. Talvez não quisesse tanta intimidade para não criar a tal da cumplicidade.
Clara continuou no banho quando escutou a porta bater com tudo. Acabou a história, mas não o sonho. Ele foi embora, mas não acabou o amor.
Um mês depois, quando ela já estava desacreditada de que ele pudesse voltar, ele telefona para ela, sentindo um aperto tímido no peito.
Não disseram muita coisa, mas a sintonia era a mesma. No dia seguinte, ela acorda com a voz dele na secretária eletrônica cantando: “Querida, onde está você, vamos dançar o iê ie iê.” Ela correu para atender, mas não deu tempo. Deixou um número.
Encontraram-se no parque. “Não consigo parar de pensar em você. Quero continuar o que ainda não começamos”, ele disse olhando fundo. Ela sorriu.
”Te amo”, ela diz. Mas ele não acredita, mesmo sabendo que ela não mente. Clara faz declarações de amor com a mesma tranqüilidade que acende um cigarro depois do café.
Vendo que Benjamin ainda estava em dúvida, agora ela é quem acaba com tudo. Ele não queria continuar nada, tinha medo. E ela não quis se preocupar muito no que ele realmente pensava. Era simples: Sim ou não?
Como diz Fernando Pessoa, todos que vivemos temos uma vida que é vivida e outra que é pensada. Mas para Clara essas duas vidas brotam juntas com muita intensidade.
Ela tinha certeza de aquilo foi amor, e não cisma. Existem mulheres sim, que cismam com um cara que talvez tenha um sexo ótimo. Mas se não tem amor, se não tem entrega, Clara não cisma à toa.
Hoje é segunda-feira de carnaval. Pierrôs, colombinas, pandeiros e cuícas se misturam na cidade. Há meses Benjamin não tira da cabeça a cena daquela esquina, quando ela não o deixou terminar de falar e foi embora.
Sentado em sua poltrona, ele tenta moldar a imagem dela ali. Ele ainda sente seu cheiro quando pensa nela. E se atordoa vendo surgir dentro de si, aquela vontade de dizer que tudo não passou de um inocente pavor. E que não sabe por que não a segurou pelo braço quando ela se levantou, e porque nunca mais a procurou…
E Clara estava lá. Decidida como sempre, querendo respostas para tudo. É claro que ela queria escutar o porquê daquele pavor. Perturbada por nem ao menos ter se despedido.