PAPEL CARBONO

Porque aqui estão registradas as minhas impressões sobre tudo, entre novidades e velharias.
E também, porque tenho uma queda pelo old school.


Marcia Granja
Mail: m-granja@hotmail.com

Gosto deste título do Ernesto Sabato. Obviamente do livro também.

Devia ter uns 16 anos quando o comprei justamente por conta do título. Naquela época eu não tinha heróis e achei que lendo o livro encontraria um.

No começo fiquei com um pouco de medo. Tal como se você se deparasse com um portão de madeira fechado por uma corrente de ferro e uma pequena fresta aberta.

Decidi então abrir o tal portão.

O livro é incrível, sou suspeita para falar de Sabato. Traz pinceladas da Argentina num enredo que mistura política, amor, loucura e a Seita Sagrada dos Cegos. Mas dei por conta que o título não representava em si um herói específico a quem eu queria admirar.

Fiquei frustrada, pois pela ausência do meu pai, a busca por um herói não havia terminado ali.

Anos se passaram. As percepções mudaram. Mas acredito que de uma forma muito positiva, pois se estamos aptos a aceitar as mudanças as coisas melhoram.

Vejam, esperei por 25 anos que meu pai mudasse, que se aproximasse de mim. Até o dia que eu decidi duelar com a mágoa e com o orgulho. Saí ferida, mas consegui dar o primeiro passo para uma relação de conversas, de compreensão, de ajuda, de carinho.

De vermos juntos, cantando com bandanas amarradas na cabeça aos shows dos Rollings Stones na TV.

Meu pai pode ter sido o pior pai do mundo por 25 anos enquanto eu procurava um herói por aí. Mas hoje, quase dois anos depois, mostro a ele todos os dias com humor e amor sincero que ele é sim o meu herói. E que eu o perdoei e o aceito como ele é.

Afinal, é meu pai. Não é o Superman, mas é o meu herói.

Foto de Livia Lima - http://www.flickr.com/photos/liviaslima/