PAPEL CARBONO

Porque aqui estão registradas as minhas impressões sobre tudo, entre novidades e velharias.
E também, porque tenho uma queda pelo old school.


Marcia Granja
Mail: m-granja@hotmail.com

Eu gosto do Brasil.
Do Brasil que ouve Cartola, Paulinho da Viola, Roberto Carlos e Clementina de Jesus. Do Brasil que cozinha acarajé, moqueca e feijoada. Eu gosto do Brasil que prefere o drible ao gol. Do Brasil que é caipira minimalista. Do Brasil que pede licença e limpa o pé antes de entrar. Eu gosto do Brasil que sorri. Do Brasil que respeita. Que dá lugar para os idosos. Eu adoro o Brasil que se liga no mundo sem macaquice. Que varre a calçada, que pinta a fachada, que não pisa na grama. Eu gosto do Brasil que lê Machado de Assis, Graciliano Ramos e Manuel Bandeira. Do Brasil que diz obrigado. Que segura a porta do elevador. Que abaixa o som se estiver incomodando. Do Brasil que questiona o que se diz na TV e nos jornais.
Do Brasil que faz grafite. Do Brasil que ama os animais. Do Brasil que se mistura.

Eu não gosto do Brasil.
Do Brasil que ultrapassa pelo acostamento. Que fura fila. Que não deixa entrar. Do Brasil que ouve sertanejo pop, pagode e música brega em geral. Do Brasil que se orgulha da própria ignorância. Eu detesto o Brasil que fala tudo no gerúndio. Que lava a calçada com mangueira. Que bota gergelim, tomate seco ou catupiry em tudo. Eu odeio o Brasil que ri de quem é honesto. Que vota no Collor, no ACM, no Maluf, no Roriz. Eu não gosto do Brasil que come de boca aberta. Que não sabe segurar a faca. Eu não gosto do Brasil que torce contra o sucesso dos amigos. Que joga lixo pela janela. Que joga lixo no rio. Que joga lixo no terreno baldio. Eu simplesmente odeio o Brasil que perpetua as desigualdades sociais, econômicas e educacionais. Que discrimina porque é pobre, gay, negro, gordo, velho ou feio. Que assiste a Luciana Gimenez e o TV Fama.
Do Brasil que reduz para apreciar o acidente. Do Brasil que se acomoda. Do Brasil que não ama e não faz caridade. Do Brasil que não crê, que não se doa.
Esse Brasil sim, eu odeio.