Às vezes penso que não sou deste mundo.
Sorri pra ele. De início simpatia, uma pequena sintonia.
Pegou na minha mão, me beijou como que pedindo permissão. Passou a me chamar carinhosamente de Maria.
Após um tenebroso silêncio por parte dele, pensei: “Sorri em vão?”
Maluca nem tão lá nem cá, mas tampouco algo semelhante a uma alpinista social. É que nessas horas a gente tenta concluir tudo, podendo interpretar o silêncio erroneamente.
Confesso que estive otimista até. Duas pessoas sensíveis que poderiam deixar algo puro nascer.
Mas as amigas logo me trouxeram à realidade dizendo metaforicamente: “Deixa de ser tola, desde Cabral que todo mundo rouba”.
Elas e mamãe têm razão, não adianta. Esse meu jeito extremamente sincero e ingenuamente instantâneo faz com que qualquer um fuja antes mesmo de perceber que eu ainda não estava apaixonada.
É. Eu de fato não posso ser desse mundo.
Não consigo me encaixar nesse padrão de regras e condutas para não assustar o outro.
Só consigo ser eu mesma. Atrapalhada. Ou quem sabe um espírito velho que não tem medo de ser tolo.
Mas enfim. A questão não é o beijo que eu queria que se repetisse há um tempo. Nem a atração física, porque isso tudo isso já foi.
O problema é a atração intelectual. Seria normal sofrer disto?
De vibrar enquanto ele fala porque os olhos dele brilham diferentes.
Em imaginar portas para um mundo que ainda não conheço porque ele tem tantas coisas legais a me contar…
Olhos que brilham despretensiosamente para tudo porque eu jamais gostaria que fossem só para mim.
Aí se soma o fato de querer segurar na mão dele sempre que ele conversa comigo. De querer tocar sem poder, porque se eu o fizesse ele acharia que eu estaria me declarando enquanto eu só gostaria que ele soubesse que o que nasceu foi essa admiração bizarra. De me preocupar se ele está bem, de querer conversar mais. Nada mais.
Mas ele nunca vai saber disto.
Coragem não falta, mas sobra a certeza de que ele não entenderia que eu não sou deste mundo.