Sou diferente dos demais.
Eu posso assustar quando olhar bem dentro dos olhos de alguém, fazendo-o sentir um fogo intenso que não cessa de queimar. Mas também posso olhá-lho apenas clamando por cuidado, por um pouco mais.
Posso deixá-lo com medo quando, num primeiro momento, as lágrimas escorrerem por minhas faces. Porque confesso que eu não sei andar devagar. A cada vez que dou um passo, tropeço. Então preciso trotar.
Posso magoar às vezes, por amar demais e querer bem. Dou o tratamento como trato a mim mesma, e nem sempre aprendi a ser justa comigo (porque nem sempre aprendi a me amar).
Enquanto ensaio versos ou palavras certas para tocar o coração de alguém, ou simplesmente compreender melhor aquilo que vivo, de tanto ensaiar, acabo pondo intensidade demais em tudo. Porque eu não tenho medida: metade do coração é amor, e a outra metade verdade. E eu sei que esse combo destrói.
A vida já se encarregou de me ensinar – e é essa a razão de eu soar tão incompreensível tantas vezes, aos olhos de tantos.
Um dia posso querer alguma coisa ou alguém mais do que a mim mesma, e isso pode parecer abandono; posso desejar algo mais do que o luar às águas das marés, e isso pode parecer avidez; posso precisar mais do que meus pulmões do oxigênio a cada respiração, e isso parecer possessividade. Um dia, meus olhos poderão sorrir sem motivos, e isso soar como carência. Só que sem ser tudo isso.
Tratam-se de inconfissões de um coração com uma engrenagenzinha quebrada, que não sabe dosar entrega e espera, medo e confiança, companheirismo e individualidade. E essa engrenagem, que range sobrecarregada pelos intempéries dos dias pode ser que um dia quebre de vez. Para algo de extraordinário, assim espero.
Se acontecer, peço paciência.
É importante me aceitar assim, do jeitinho que sou, com meus exageros e dramas, com meus sentimentos aflorados, com meu olhar doce dominando um corpo possuído de desejo e necessidade vulcânica de amor.
Basta me dar a sua mão e atravessar comigo, mesmo quando temer, porque posso te assegurar, mesmo o que mais assusta e dói, não vai além da minha alma disposta a se derramar por ti.
Entenda que minha alma é de poeta, mesmo sem ser.
Às vezes penso que não sou deste mundo.
Sorri pra ele. De início simpatia, uma pequena sintonia.
Pegou na minha mão, me beijou como que pedindo permissão. Passou a me chamar carinhosamente de Maria.
Após um tenebroso silêncio por parte dele, pensei: “Sorri em vão?”
Maluca nem tão lá nem cá, mas tampouco algo semelhante a uma alpinista social. É que nessas horas a gente tenta concluir tudo, podendo interpretar o silêncio erroneamente.
Confesso que estive otimista até. Duas pessoas sensíveis que poderiam deixar algo puro nascer.
Mas as amigas logo me trouxeram à realidade dizendo metaforicamente: “Deixa de ser tola, desde Cabral que todo mundo rouba”.
Elas e mamãe têm razão, não adianta. Esse meu jeito extremamente sincero e ingenuamente instantâneo faz com que qualquer um fuja antes mesmo de perceber que eu ainda não estava apaixonada.
É. Eu de fato não posso ser desse mundo.
Não consigo me encaixar nesse padrão de regras e condutas para não assustar o outro.
Só consigo ser eu mesma. Atrapalhada. Ou quem sabe um espírito velho que não tem medo de ser tolo.
Mas enfim. A questão não é o beijo que eu queria que se repetisse há um tempo. Nem a atração física, porque isso tudo isso já foi.
O problema é a atração intelectual. Seria normal sofrer disto?
De vibrar enquanto ele fala porque os olhos dele brilham diferentes.
Em imaginar portas para um mundo que ainda não conheço porque ele tem tantas coisas legais a me contar…
Olhos que brilham despretensiosamente para tudo porque eu jamais gostaria que fossem só para mim.
Aí se soma o fato de querer segurar na mão dele sempre que ele conversa comigo. De querer tocar sem poder, porque se eu o fizesse ele acharia que eu estaria me declarando enquanto eu só gostaria que ele soubesse que o que nasceu foi essa admiração bizarra. De me preocupar se ele está bem, de querer conversar mais. Nada mais.
Mas ele nunca vai saber disto.
Coragem não falta, mas sobra a certeza de que ele não entenderia que eu não sou deste mundo.
O que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia.
As cores, as figuras, os motivos.
O sol passando sobre os amigos.
Histórias, bebidas, sorrisos e o afeto em frente ao mar.
Não aguento_S02 (pedindo licença para publicar um vídeo que editei usando o iPhone)
Não aguento_S01
(pedindo licença para publicar um vídeo que editei usando o iPhone)